Dialética, retórica e filosofia na Antiguidade
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Por Pierre Hadot
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A teoria antiga mais elaborada sobre esse tema nos é proposta por Aristóteles em seus Tópicos e em sua Retórica. Pode ser sistematizado da seguinte forma:
1. A retórica e a dialética pressupõem uma situação inicial de conflito: uma questão (ou problema) teórica, jurídica ou política, a qual podem ser dadas duas respostas contraditórias (sim ou não). Mas a retórica e a dialética estão interessadas, não na resposta como tal, mas nos meios de fazer com que uma das duas respostas possíveis seja aceita por um adversário ou por um juiz ou pelo povo. O que importa não é a “coisa” em questão, mas o ouvinte. Não se trata de trazer conhecimento sobre a coisa, mas de convencer o ouvinte a adotar esta ou aquela opinião sobre esta ou aquela coisa. Para levar o ouvinte a essa convicção, é necessário partir do que ele mesmo já está convencido, ou seja, de suas próprias opiniões, ou, de maneira mais geral, de opiniões universalmente aceitas, isto é, de noções comuns e naturais, admitidas por todos os homens. É isso que as distingue – dialética e retórica – radicalmente das ciências, como matemática, física ou filosofia primária. Estes últimos têm seus próprios princípios técnicos, que são compreendidos apenas por especialistas, e se aplicam a um campo específico e determinado da realidade. A retórica e a dialética, por outro lado, são “comuns” e universais, não têm, em princípio, um domínio próprio, mas podem ser aplicadas a qualquer objeto, e partem de princípios acessíveis a todos. Elas não são reservadas ao especialista, mas são dirigidos ao homem enquanto homem; eles pressupõem uma cultura geral e não uma habilidade particular. Elas não trazem conhecimento sobre um ponto específico; apenas procuram provocar a convicção do ouvinte com a ajuda do que ele já sabe. É por isso que eles são capazes de provar os prós e os contras, o sim e o não, o que Cícero chamará de argumentação in utramque partent.
2. Apesar desse parentesco fundamental, a retórica e a dialética diferem uma da outra. A dialética é a arte da discussão, isto é, formula as regras da justa dialética em que o dialético argumenta contra a tese de um adversário, a fim de obrigá-lo, por meio de perguntas hábeis, a admitir necessariamente a contradição de sua própria tese. O dialético não tem uma tese, mas é capaz de argumentar contra qualquer tese. Esse jogo de perguntas e respostas e esse tortuoso itinerário de discussão não se encontram na retórica. Esta último usa um discurso contínuo, sem que o ouvinte a ser persuadido participe da argumentação, como é o caso da dialética. Por outro lado, a dialética é, em princípio, mais universal do que a retórica: a dialética, de fato, lida com todos os assuntos possíveis de modo universal, sem a intervenção de considerações concretas. Pelo contrário, a retórica trata sobretudo de problemas concretos (este homem cometeu um assassinato? a guerra deve ser travada?), ou seja, problemas que os antigos chamavam de “civis” ou “políticos” e que, por definição, são contingentes.
Dadas essas características gerais, deve haver uma oposição radical entre retórica e dialética, por um lado, e as ciências filosóficas, por outro. Trata-se, de fato, da teoria aristotélica, expressa nos Analíticos, e muitas vezes reafirmada, especialmente nos escritos biológicos, em que Aristóteles opõe o método do raciocínio vazio, vazio, porque puramente lógico e dialético, ao método do raciocínio próprio, que se baseia nos princípios próprios do objeto estudado, e requer a tecnicidade de um especialista.
No entanto, concretamente, a retórica e a dialética ocupam um lugar muito importante na filosofia aristotélica. Eles aparecem pela primeira vez nas fronteiras da ciência filosófica, quando esta última não pode mais desenvolver o discurso por si só, porque o objeto a que se dirige lhe escapa, na medida em que é uma ciência particular – e também, quando não se trata mais de tornar algo conhecido, mas de convencer um ouvinte. É o que acontece quando uma ciência particular, como a física, por exemplo, quer falar dos princípios absolutamente universais – axiomas – que ela pressupõe e que se baseiam em opiniões universalmente aceitas. Como diz Aristóteles (Top., 101a, 37): “É impossível falar das noções primárias de cada ciência com base nos princípios específicos da ciência em consideração, uma vez que precisamente os princípios são os primeiros em relação a todo o resto; portanto, é necessário, se quisermos tratá-los, recorrer às ideias existentes sobre cada uma dessas noções. Essa tarefa pertence à dialética por si só. Por exemplo, o uso do princípio da identidade, o axioma fundamental de toda ciência, só pode ser esclarecido por um método dialético. Outra fronteira da ciência é onde aparecem as afirmações da existência. Por exemplo, na Física, a existência do tempo ou do infinito é um problema. Pois, a ciência tem por objeto a essência e não a existência das coisas. Não conhecemos adequadamente uma existência, estamos ou não convencidos dela. Mas, como W. Wieland apontou (Aristoleles als Rhetoriker und die exoterischen Schriften, in Hermès, vol. 86, 1958, pp. 322-246), a retórica (especialmente a retórica judicial) está preparada para esse tipo de questão, pois muitas vezes tem que servir para convencer as pessoas da existência de um fato. Aristóteles chama o modo de argumentação retórica que ele emprega para lidar com esses problemas de existência de “argumentação exotérica”. Simplício comenta essa expressão dizendo: “Exotérico é aquilo que não é especializado (koinà) e que conclui com razões admitidas por todos (endoxa)” (In Phys., pp. 695, 33).
Por outro lado, a retórica e a dialética intervêm na discussão com oponentes que rejeitam os dogmas fundamentais da escola, ou seu método, ou com leigos que ignoram qualquer tecnicismo científico. Em tal situação, somos obrigados a confiar em noções comuns e não nos próprios princípios do especialista, de modo que somos forçados a operar com a ajuda de abordagens retóricas ou dialéticas.
Mas isso não é tudo. De fato, como a maioria dos teóricos que definiram um método, Aristóteles não usou em seus trabalhos científicos, a técnica de argumentação que propôs em seus Analíticos. Muitas vezes, seus procedimentos de argumentação são dialéticos, até mesmo retóricos. Seu método favorito consiste, como na dialética, em traçar conclusões (já conhecidas) às premissas que permitem que elas sejam descobertas. Na dialética, trata-se de descobrir as perguntas que terão que ser feitas, as premissas que terão que ser feitas fazer o adversário admitir, a fim de chegar à conclusão desejada. W. Wieland, mais uma vez (Die aristotelische Physik, Göttingen, 1962, p. 216), mostrou claramente que os princípios próprios de cada domínio da realidade são análogos aos topoi da argumentação dialética, aos pontos de vista gerais e aos esquemas argumentativos dos tópicos. Trata-se de paideia, isto é, de cultura geral, e não de ciência, saber reconhecer os pontos de vista fundamentais segundo os quais se pode abordar os fenómenos (cf. P. Aubenque, Science, culture et dialectique chez Aristote, in Actes du Congrès de l’Association G. Budé, 1958, p. 144-149). Finalmente, mais de uma página da obra de Aristóteles (notadamente no tratado Sobre o Céu e no Livro XII da Metafísica) se distingue por uma elevação e uma busca por estilo que trai o uso de meios retóricos.
Na história posterior da relação entre retórica, dialética e filosofia, a noção de tese desempenha um papel crucial (sobre este tema, cf. o importantíssimo trabalho de H. Throm, Die Thesis, Paderborn, 1932). Vamos primeiro definir o significado da palavra tese na dialética aristotélica, ou seja, na técnica de argumentação do diálogo que Aristóteles propõe em seus Tópicos. Para Aristóteles, a tese é a posição teórica (por exemplo: o prazer é um bem, a alma é um número) defendida por um adversário, contra a qual o dialético argumenta de tal forma que forçará seu adversário a negá-la. A tese, colocada em forma interrogativa, torna-se o problema (o prazer é um bem?). O dialético procurará forçar seu adversário a dar a esse problema uma resposta contraditoriamente oposta àquela que ele lhe deu no início da discussão. Para conseguir isso, ele argumentará com base em premissas (ou seja, questões) habilmente escolhidas, de modo que a contradição da tese sustentada pelo oponente decorre delas. Para resistir a essa restrição que o leva, resposta após resposta, a admitir que se contradiz, o adversário pode se defender fazendo objeções e distinções conceituais. Essa prática dialética, que permaneceu honrada durante toda a Idade Média e, na tradição escolástica, até o período contemporâneo (R. Barthes está seriamente enganado ao acreditar que é um fenômeno propriamente medieval!), representou aos olhos de Aristóteles um exercício intelectual útil para a formação da mente; mas, para ele, pelo menos em teoria, o método adequado de filosofia era bem diferente. Nas escolas estóicas (cf. Plutarco, Contradições dos estóicos, §§ 8 e 10) e, provavelmente, nas escolas neoplatônicas da antiguidade tardia, a justa dialética permaneceu um exercício escolástico. Mas parece que o papel da “tese” foi ainda mais importante no ensino filosófico da antiguidade. Cícero, em vários lugares de seus tratados filosóficos, distingue entre os tipos de ensino filosófico, pela forma como a “tese” é apresentada nele. Do testemunho de Cícero, emerge, antes de tudo, que a tese é sempre uma pergunta: também em Aristóteles, a tese dialética foi colocada na forma de um problema (“o prazer é um bem?”). Em toda uma parte da tradição platônica, o ensino é praticado de acordo com um esquema que corresponde às regras da dialética aristotélica (e provavelmente às práticas da Antiga Academia): Arcesilau, diz-nos Cícero, pediu a um autor que apresentasse uma tese, argumentou contra essa tese, deixando o ouvinte livre para defender sua tese. Havia, portanto, um diálogo (e dialética) entre o mestre e o ouvinte, mas Arcesilau, como Sócrates, não buscava impor uma doutrina, não tinha tese, apenas argumentava contra a tese. Pelo contrário, de acordo com uma tradição que, segundo Cícero, remonta à sofística, e especificamente a Górgias, existia uma outra parte da tradição platônica um outro método de ensino, no qual o discípulo colocava uma tese de tal forma que o mestre encontraria nela uma oportunidade de expor sua própria doutrina. Por exemplo, sabendo que o mestre, como bom platônico, pensava que o prazer não é o bem supremo, ele disse: “Parece-me que o prazer é o bem supremo”, para que o mestre pudesse refutar essa teoria, ou seja, de fato, desenvolver sua própria tese. A tese do discípulo, contra a qual o mestre argumenta, é então apenas uma questão do aluno. E, na maioria das vezes, o professor responde a eles com um discurso contínuo. Os cinco livros de Tusculanes são introduzidos por questões desse tipo, que permitem a Cícero refutar a posição oposta e expor sua própria doutrina. A argumentação ciceroniana é dialética, quando procede por perguntas e respostas, e retórica, quando se desenvolve em um discurso contínuo. Em ambos os casos, também é retórica e dialética no sentido aristotélico, na medida em que apela a noções comuns e ideias aceitas. A filosofia platônica, que inspirou Cícero, é “probabilística” porque se baseia nessas noções comuns, endoxon. Filosofia, dialética e retórica usam os mesmos princípios de demonstração aqui.
Resulta de tudo o que precede que, na prática do ensino filosófico, a tese corresponde muito precisamente a uma pergunta, à qual um interlocutor, aluno ou oponente, dá uma resposta específica (sim ou não) e à qual o professor dá uma resposta que é a contradição da resposta dada pelo aluno ou pelo oponente. Aulu-Gelle relata, em suas Noites no Sótão (I, 26), que, durante a diatribe, questionou seu mestre Taurus para lhe perguntar: “O sábio está em cólera?” Esta é a tese: e é evidente que Aulu-Gelle queria que Touro lhe respondesse: “O sábio não se irrita”.
Na verdade, a resposta de Touro foi muito matizada, mas foi feita de forma livre e copiada, ou seja, de forma retórica. Tudo isso nos revela a importância da estrutura pergunta-resposta em todo o ensino filosófico da Antiguidade.
Como Throm mostrou muito bem no trabalho citado acima, a tese, como pergunta e resposta, corresponde exatamente ao que os modernos chamam de diatribe, um gênero literário que se caracteriza por fragmentos de diálogos fictícios, o estilo pictórico, a forma popular. Esses aspectos retórico-dialéticos da diatribe correspondem exatamente à situação da tese no ensino filosófico. Além disso, os assuntos tratados no que os modernos chamam de “diatribes” correspondem exatamente às enumerações de temas de tese em Alexandre de Afrodísia e em Cícero. Levaria muito tempo para apresentar aqui o problema colocado pela relação entre tese e hipótese na tradição retórica. Bastará concluir enfatizando os poucos pontos que emergem deste estudo: a importância da dimensão do ouvinte concreto na filosofia antiga, o caráter universal da estrutura pergunta-resposta, o aspecto psicoagógico do ensino filosófico.
Referência
Hadot Pierre. Conférence de M. Pierre Hadot. In: École pratique des hautes études, Section des sciences religieuses. Annuaire. Tome 85, 1976-1977. 1976. pp. 297-309
(Tradução de André Lisboa)
