O pensamento trágico
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Por Luigi Pareyson – Trad. André Lisboa
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É verdade que as ciências humanas, como a sociologia, a psicologia, a linguística, a antropologia cultural, e assim por diante, tiveram um enorme desenvolvimento; mas isso não significa que a filosofia deva ser considerada, como alguns acreditam, suplantada por elas. Nenhuma das ciências humanas pretende retirar o campo da filosofia; na verdade, todas juntas alargaram extraordinariamente o âmbito da filosofia, oferecendo-lhe um conjunto muito rico de dados para problemas novos e mais complexos, e até instando-a a especificar a sua tarefa mais detalhadamente. A filosofia também não se deixa perturbar pela consciência da sua própria condicionalidade, seja ela histórica, cultural, ideológica, psicológica ou fisiológica, porque, pelo contrário, é um problema interno por si só, emergindo assim mais crítica e astuta. Tudo pode ser feito como filosofia: não há área de experiência que escape à reflexão filosófica, e tanto melhor se o campo já tiver sido lavrado por uma das ciências humanas. Com a abertura desses novos setores de experiência, põe-se um campo ilimitado diante da pesquisa filosófica, como convém ao “empirismo superior”, que é o pensamento hermenêutico.
A primeira característica do pensamento hermenêutico é que ele é ao mesmo tempo envolvente e penetrante; problematizador e universalizante. Por um lado, submete o seu campo de investigação a interrogações tão rigorosas que surgem continuamente problemas cada vez mais urgentes e inevitáveis. Por outro lado, sabe captar a verdade e descobrir o seu significado, levando-a a um grau de esclarecimento capaz de interessar e envolver todos os homens.
A diferença entre o discurso das ciências humanas e o da filosofia consiste em que o pensamento filosófico é mais original, porque – e esta é a sua característica mais profunda – pressupõe uma escolha existencial, ou seja, implica uma perspectiva pessoal sobre a verdade. O pensamento filosófico é hermenêutico em sentido pleno, porque é ao mesmo tempo a interpretação da experiência e a interpretação da verdade, nem pode ser uma coisa sem ser a outra: é ontológico e revelador e, ao mesmo tempo, histórico e pessoal, inextricavelmente.
O pensamento hermenêutico é, portanto, pensamento do ser e ao mesmo tempo discurso sobre os entes, tensionado entre um profundo enraizamento ontológico e uma abertura experiencial sem fim. Antes de tudo, é bem verdade que não se pode falar do ser sem falar dos entes, mas não é menos verdade que não se pode falar dos entes sem falar do ser, e é neste falar único e, ao mesmo tempo, duplo que reside o pensamento hermenêutico. Além disso, é muito certo que a verdade só se oferece dentro da interpretação pessoal e da formulação histórica em que se dá, mas isso não significa que seja reduzida a essa; antes, no próprio ato de coincidir de vez em quando com essa, é ela sempre ulterior e, portanto, não se deixa perder no fluxo da história e da experiência.
A filosofia realiza-se, portanto, sempre numa multiplicidade não resumida, e igualmente a unidade do conhecimento filosófico não se realiza panorâmica, abrangente e definitivamente, mas transversal e obliquamente: toda filosofia é uma perspectiva pontual e radiante, um vislumbrar nem exclusivo nem total da verdade e da realidade ao mesmo tempo.
O futuro, na minha opinião, é favorável ao pensamento hermenêutico assim entendido, mas não parece favorável aos grupos de hermenêutica que pretendem prescindir da verdade. A interpretação, diz-se, não é a interpretação de algo: não há coisas, fatos ou verdades para interpretar, mas apenas interpretações e interpretações de interpretações. Penso que isto não está em conformidade com o conceito de interpretação, o qual ou é uma interpretação de algo ou não o é: a interpretação que dissolve em si o que deve interpretar, e que, por isso, o substitui, deixa, precisamente com este fato, de ser interpretação. Resta então o fluxo da experiência, em si indiferente e desprovido de distinções possíveis, sem conflitos e sem dramas, na verdade confortável e consolador, longe do pensamento trágico que se aninha no próprio coração do pensamento hermenêutico.
O clima da interpretação, diante de uma árdua tarefa de compreensão e, portanto, de apoio e de fidelidade, é de risco e, portanto, de angústia e dúvida. Com efeito, se pensarmos que o único acesso possível à verdade é a liberdade, que se exerce com um ato que pode ser de consentimento e aceitação, mas também de negação e recusa, parecerá que o ambiente da interpretação é o dramático, de conflito e contradição. O pensamento hermenêutico, na medida em que se refere a uma ontologia da liberdade, está intimamente ligado ao pensamento trágico. A natureza da liberdade é ser abismal e ambígua: por um lado, não supõe que seja ela mesma e, por outro, é sempre positiva e negativa ao mesmo tempo. Colocá-lo no centro da realidade significa trazer a duplicidade e o contraste para o coração da realidade: supor um fundamento que sempre se nega como fundamento e almejar a inseparabilidade entre positividade e negação. O que nos convida a reconhecer a tragédia insondável e profunda que é inerente à própria realidade.
O problema do mal e da dor só pode hoje ser abordado de forma frutífera através de uma hermenêutica da tragédia antiga e moderna e da experiência religiosa cristã. Esta hermenêutica conduz a dois princípios fundamentais no pensamento trágico. Antes de tudo, o mal não é ausência de ser, privação do bem, falta de realidade, mas é realidade, realidade positiva na sua negatividade. Resulta de um ato positivo de negação: de um ato consciente de transgressão e revolta, de recusa e negação a uma positividade anterior; por uma força negativa em exercício, como a liberdade negativa, pois a liberdade é livre até para não ser livre, e é sempre com um ato de liberdade que ela se nega como liberdade, tornando-se assim um poder de destruição. Em segundo lugar, existe uma ligação indissolúvel entre o mal e a dor, representada pela expiação, no sentido de que o sofrimento é ao mesmo tempo o castigo da culpa e a sua única redenção possível: ninguém é propriamente inocente, e entre todos os homens, unidos por uma solidariedade originária na culpa e na dor, pesa sobre nós um destino de expiação, de modo que também os “inocentes”, se é que existem, são chamados a sofrer pelos outros, para lavar a culpa comum, e o mal é tão grande que é precisamente sobre eles que acabam recaindo os maiores sofrimentos, com os quais o escândalo do mal atinge o seu extremo. O mal e a dor estão no centro do universo, e o coração da realidade é trágico e doloroso.
(Extraído de Pensiero ermeneuticoe pensiero tragico, 1986, em Dove va la filosofia italiana, a cura di J. Jacobelli, Bari, Laterza, 1986, pp. 135-137, 139-140)
